PRIMITIVISMO versus CIVILIZAÇÃO

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PRIMITIVISMO versus CIVILIZAÇÃO

A luta pelos princípios da civilização contra o primitivismo dos homens de perpétua aurora

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Nota prévia: texto longo, para quem não tem preguiça de ler.

 

Um assunto que muito aquece meu coração é o debate entre o primitivismo, a barbárie, e a civilização.

Penso que o assunto desperta tanto interesse porque não poucas pessoas enxergam no primitivismo uma espécie de ideal às avessas de vida.

Acreditam, não com pouca ingenuidade, que a selva é melhor, que no primitivismo reside a pureza.

Discordo veementemente.

Há um livro muito interessante, intitulado “Na Natureza Selvagem”, escrito com base em fatos verídicos. Um jovem da classe média alta americana, questionador, introspectivo, mas emocionalmente desordenado, resolve abandonar tudo e todos e, partir para a vida selvagem no Alasca. 

Acreditava encontrar o sentido da vida e, em verdade, encontrou a morte, envenenado pela ingestão de frutos silvestres. Ele mesmo narrou em seu diário seus momentos finais de grande angústia. Não achou a paz que esperava, mas na natureza selvagem viu o que é padecer no inferno. Morreu sozinho, em abandono voluntário, desesperançado. 

Encontrado o diário ao lado de seu corpo morto, semidecomposto, a família o entregou a um escritor que dele fez um interessante livro.

Livro que ganhou maior destaque quando serviu de fiel roteiro para um ótimo filme.

Filme que repete o título do livro (em inglês “Into the Wild”) e que conta com magnífica trilha sonora de Eddie Vedder, vocalista da famosa banda Pearl Jam.

O diretor do filme consegue transmitir bem a agonia do jovem, sua inquietude difusa, e a armadilha que é acreditar que a natureza é paradoxalmente mais evoluída do que a civilização. 

Na natureza o jovem não encontrou respostas, nem vida autêntica. Não. Lá só aumentou as dúvidas e beijou – talvez muito antecipadamente, para não entrar, aqui, no campo dos mistérios insondáveis de Deus, da transcendência e da metafísica – a face da morte em sua versão selvagem, sem ao menos se preparar espiritualmente para tanto.

Já que falei em cinema, há um outro ótimo filme que aborda a dicotomia primitivismo e civilização, o espanhol “Bajo del piel de lobo” [Sob a pele do lobo].

Um filme de 2018, que, como escreveu famoso crítico de cinema “não é para todo o mundo, é bom deixar isso claro desde já”. De fato, é um filme de quase duas horas com pouco dinamismo e que exige muita atenção do espectador. Não uma atenção qualquer, mas aquela reflexiva, aquela que é própria de quem busca enxergar tudo com profundidade. 

Um filme com poucos diálogos e ações lentas. Fotografia fantástica. Ambientado no início do século passado, trata da vida de um montanhês solitário do extremo norte da Espanha. Um homem que vive sozinho e que raramente interage com outros homens. 

Disse Gustavo David: “Não se trata de uma história com qualquer ramificação política, mas, sim, de uma narrativa focada numa questão semi-antropológica do homem enquanto animal e ser social”. 

O montanhês é um caçador de lobos e vende as peles em um povoado próximo, onde obtém víveres. Somente quando seu cachorro e único amigo morre, ele resolve aceitar o conselho do dono do bar local e se casar. 

E aí surge o eixo central do filme com toda sua carga dramática: “Tornado besta pelos muitos anos vividos em isolamento, agora o homem será desafiado pela interação humana e por todos os sentimentos conflitantes que isso instiga dentro de si, dicotomia esta que ficará ainda mais óbvia durante aquele inverno que se aproxima.”, diz o mesmo Gustavo David.

Em vez de se mudar de vez para o povoado, o homem, agora casado, leva sua mulher para o coração inóspito da vida selvagem. 

Não comentarei mais a fim de não estragar o prazer de o amigo leitor assistir a um excelente filme, mas concluo dizendo que, a exemplo do outro filme ora lembrado, este também demole a visão idílica, nada verossímil, que muita gente tem sobre a natureza e a suposta pureza embriagadora de uma vida selvagem, primitiva.

Menciono os dois filmes, que bem justificam o título do cinema como sétima arte, para afirmar, a despeito da rouquidão de minha voz, que nem na periferia da vida intelectual se faz ouvir, que a civilização, com todos os seus muitos defeitos, é sempre preferível à natureza.

A natureza encanta, enternece, seduz e é em si mesma muito boa. Mas não é para o homem. Isso porque os cantos dos pássaros, a brisa fresca e a beleza comovente do entardecer logo cedem seus lugares aos urros das criaturas ferozes, o vento frio e as trevas da noite. 

Por isso, o homem necessita da civilização quase tanto necessita de Deus. A civilização, aliás, é um dos projetos de Deus para os homens. 

É bem verdade que os monges cistercienses diziam “natura cura”. Sim, a natureza cura. E São Bernardo de Claraval, Doutor da Igreja, Abade, grande nome do século XI, ensinava que na natureza também se podia rezar e meditar sobre as questões transcendentes. Mas não é menos verdade que Bernardo e seus monges se curavam na natureza, nela meditavam, mas logo voltavam ao mosteiro de Clairvaux, onde dispunham dos elementos necessários para sua digna formação espiritual, que passava necessariamente pelos estudos, trabalhos e convivência fraterna. Embora afastada espiritualmente do mundo, Clairvaux era a civilização em sua perfeição ideal.

Ao refletir sobre o primitivismo e a história, José Ortega y Gasset, em sua famosa obra, “A Rebelião das Massas”, disse: “A natureza está sempre aí. Sustenta-se a si mesma. Nela, na selva, podemos ser selvagens impunemente. Podemos, inclusive, resolver nunca deixar de sê-lo, sem mais riscos além do advento de outros seres que não o sejam.”. Quão poderosas e constrangedoras, porque verdadeiras, são estas palavras: “na selva, podemos ser selvagens impunemente.”.

Logo depois de expor as entranhas ácidas da natureza, afirmou, com a autoridade que lhe era comum, o seguinte: “A civilização não está aí, não se sustenta a si mesma. É artifício, e requer um artista ou artesão. Se você quer se aproveitar das vantagens da civilização, mas não se preocupa em sustentar a civilização…, você se ferrou. Num piscar de olhos, você fica sem civilização. Um descuido e quando você olha em sua volta, tudo evaporou! Como se tivessem sumido os tapumes que tapavam a natureza pura, reaparecesse restaurada a selva primitiva. A selva é sempre primitiva. E vice-versa: tudo o que é primitivo é selvagem.”.

Sim, a civilização requer a maestria de um artista para viver e não admite nenhum descuido, pois dela ao primitivismo não distam seis ou sete passos. E é exatamente disso que desejo tratar neste modesto e despretensioso texto: o desamor pela civilização. 

Esse desamor que tento aqui expor não é o apego pueril ao primitivismo como espécie de crença ilusória em uma estado de perfeição ideal, mas algo muito pior: a vilania da desconstrução dos valor fundamentais, das tradições, dos princípios ordenadores da vida em sociedade e que sempre nos foram tão caros, precisos e estimulados.

Meu objetivo não é tratar, ao menos neste momento, das suas causas. Delas, falarei em oportunidades futuras. Tratarei apenas dos efeitos ou, melhor, do que vejo claramente ocorrer no mundo.

A pasta humana que boa parte das pessoas se permitiu encorpar não tem mais reverência ao refinamento social. Não rende o devido culto ao deus da elegância nem reverencia ao ícone da sofisticação. Nada disso lhe é importante. As boas normas de convívio social são mais do que desprezadas: pisoteadas! Aos falsos totens da liberdade, da autenticidade, da pessoalidade rende devoção despudorada e por trás dela expia os mais sórdidos rancores e ressentimentos. 

A pasta humana se caracteriza pela inveja, a base da amargura.

Essa mesma pasta de pessoas, cada vez mais densa, rotula toscamente tudo o que é bom, ordenado, próprio da civilização, como esnobe, pedante, supérfluo, antiquado, elitista, deixando-se enganar pela deformada visão da autenticidade e da igualdade. Quanto mais a pasta humana, influenciada por súcubos ideológicos, busca a falsa igualdade, mais aumenta os hiatos da desigualdade e mais se apequena em tudo, embora acredite alcançar o pico da montanha da ordem social.

Em nome de uma nova e débil visão de sociedade, a pasta humana se afasta da sociedade e se enfurna na caverna trevosa do primitivismo. Deixa de lado o esforço contínuo e necessário da busca da sofisticação e abraça a vulgaridade de forma tão desesperada que praticamente nela se funde, se confunde. O afeto desordenado pela pessoalidade nada mais gera do que a pior das impessoalidades, aquela em que ninguém é alguém, porque o alguém nada mais é do que todo o mundo.

Este é o drama que há dois séculos se avoluma no mundo e que ganhou especial fôlego no tempo presente.

Este desamor pelas normas e pelos princípios civilizatórios é o primitivismo na sua pior expressão. Não é o ingênuo afeto pela selva, mas o viver a selva em meio à civilização ou, em outras palavras, o esfacelamento desta em razão daquela.

Longe de mim o pecado da desesperança, mas não posso me sentir otimista com o que vejo. As brumas do ceticismo avançam e se projetam intensamente até nos espíritos mais otimistas. 

A cada instante, os biombos e tapumes do mundo caem e da suas quedas os horrores da selva se mostram em cores e sons vivos. Não sabíamos, mas estavam mais perto do que imaginávamos. 

A história nos mostra, com cruel realismo, que os artesãos e artistas civilizatórios nunca deixaram de enfrentar hordas hostis primitivas, bárbaras. Eram, porém, inimigos externos. Os limites entre um e outro mundos eram claros, definidos, como marcas pintadas no chão ou diques eficazes. Hoje, o primitivismo nasce em meio à civilização e a selva tenta tomar lugar e assumir as rédeas dos destinos. As marcas pintadas foram apagadas e os diques, rompidos. 

Kurt Breysing, famoso historiador alemão, falava muito nos “povos da perpétua aurora” e dizia que o estado primitivo poderia ascender à civilização a qualquer instante.

Inspirado em Breysig, converto a expressão “os povos da perpétua aurora” em “homens de perpétua aurora” para identificar aqueles que formam o enorme e quase invencível exército que atenta contra os marcos civilizatórios e anseia pelo primado da selva. 

E quem são os “homens da perpétua aurora”? Para responder em poucas palavras, socorro-me do grande Ortega y Gasset e digo que são “os que ficaram em uma alvorada suspensa, congelada, que não avança para o meio-dia.”. 

A erosão dos marcos civilizatórios é fenômeno da própria civilização, relativamente novo e que muito preocupa. Preocupa porque o retorno proposital à selva é a ideologia em sua mais nociva forma: caldeirão incandescente de ódios, amarguras e ressentimentos. 

E que ninguém se engane, o caldeirão não é desta ou daquela ideologia, mas de todas. A ideologia embota a visão das realidades e apequena o pensamento. 

Toda ideologia reduz o pensamento à mera ideia. Ideia fixa, impermeável, inimiga do diálogo e da compreensão. 

A ideia fixa é combustível da intolerância e o primeiro músculo da violência. 

Miguel de Unamuno me ensinou a diferença fundamental entre pensamento, algo fluído, e ideia, algo marmorizado, deixando-me à vontade para refutar as ideologias e abraçar apenas os nobres ideais. 

Os ideais convivem bem com a fé cristã, já que são do mesmo e elevado jaez. As ideologias, não. Aliás, as ideologias não conseguem conviver nem com elas mesmas, tão repulsivas que são. 

De Miguel de Unamuno também extraio interessantíssima citação: “Fala-se de struggle for life, de luta pela vida; mas essa luta pela vida é a própria vida, a life, e é ao mesmo tempo, a luta, a struggle.”. 

A vida, segundo Unamuno, era uma luta que compunha a essência da vida. Luta e vida, portanto, não duas faces da mesma moeda, mas a própria moeda, de tal forma que separar uma de outra era algo sem sentido. Concordo e aplaudo. 

Penso que a luta pela primazia dos princípios da civilização é a própria civilização. Se a civilização não se impõe por si mesma, como a natureza o faz, e se ela exige sempre um artesão, um artista, é de se supor a necessidade de constante lapidação, de confirmação, de esforço, de peleja para sua mantença. O menor descuido e a selva se apresentará.

Não é o que vimos acontecer com as atrocidades praticadas no século passado por comunistas, socialistas, fascistas e nazistas? 

A ascensão do homem-massa e a falta de esforço na defesa dos princípios civilizatórios não substituíram as boas práticas sociais, a elegância, a sofisticação, pela truculência, pelo populismo, pelo império inglorioso das vulgaridades? 

Não sentimos na pele os efeitos ruins dos momentos de selva no seio da civilização?

As perguntas têm uma só resposta: sim. Um doloroso e suspirado sim. Um sim que representa a síntese da nossa falha em zelar pelo o que melhor construímos: a civilização. 

Tudo isso me preocupa muito neste momento em que o mundo não consegue se unir nem mesmo diante de grandes problemas. Pelo contrário. Mostra-se ainda mais dividido, crispado, manchado pelos venenos ideológicos e pelas disputas mesquinhas. Hoje, desconfiamos de tudo e de todos e, com isso, aumentamos os níveis de incerteza e ficamos ainda mais reféns dos arautos da selva.

Atemporais, porque sulcadas pela verdade, as palavras de José Ortega y Gasset ao comentar, no já citado livro, os princípios da civilização: 

Os princípios em que o mundo civilizado se apoia – que temos que sustentar – não existem para o médio atual. Os valores fundamentais da cultura não o interessam, ele não é solidário com eles, não está disposto a se colocar a seu serviço. Como isso aconteceu? Por muitas razões; mas agora vou destacar só uma.

A civilização, quanto mais avança, mais se torna complexa e difícil. Os problemas que traz hoje são arqui-intrincados. O número de pessoas cuja mente está à altura dos problemas é cada vez menor.

Ele sentiu isso na primeira metade do século passado. O que diria hoje, quando o homem-massa que via triunfar em seu tempo se tornou quase senhor absoluto dos dias atuais?

Não há espaço social em que o homem-massa não tenha penetrado. Ele não respeita tradições, protocolos, ou o que é sagrado. À ele não passa a ideia de se engrandecer como os antepassados que habitavam esses mesmos espaços; à ele somente interesse o desejo de rebaixar ao seu plano inferior tudo aquilo que, um dia, promoveu a glória civilizatória. 

As redes sociais favorecem bastante a avanço da selva. Mascarada pela eufêmica expressão “democratização da comunicação e da informação”, as redes sociais, que nasceram sob o manto da evolução civilizatória, são, contraditoriamente, os tendões do primitivismo. Para cada voz lúcida, coerente, elegante, culta, civilizada que nelas se manifesta, há ao menos cem outras, histriônicas, arrogantes, grosseiras, incultas, simplistas, primitivas, que nada mais fazem do que difundir teorias conspiratórias e destilar ódio. 

Um ódio desafiador, infundado, acelerado, que se investe arbitrariamente do título de direito e finge defender a justiça. Um ódio que não enxerga a si mesmo como ódio. Um ódio que é presente em todas as ideologias e que navega por mares diferentes. Um ódio que urra como a selva e que sufoca qualquer som de civilização. 

Resultado imediato disso tudo? Também no mundo virtual os bons começam a se afastar. Não por covardia, muito menos por preguiça ou falta de comprometimento. Não, nenhuma dessas coisas. Afastam-se porque sentem que não adianta argumentar com quem pensa por slogans e fala por clichês. Afastam-se porque não querem ser ainda mais agredidos do que já são. A estupidez cansa e não aceita contraposição. A estupidez é tamanha que o idiota fundamental acredita na inteligência que não tem e, especialista em generalidades sem importância, se julga qualificado a falar dos assuntos mais complexos.

Não se esforçou, não estudou, não leu o bastante, mas ainda assim se considera em condições de enfrentar quem se esforçou, quem estudou e quem leu o bastante para opinar como homem civilizado, não como um selvagem.

Essa realidade é de uma gana tão feroz que não aceita, não tolera, o ideal. Nas redes sociais o entusiasmo legítimo é desperdiçado em elogios vazios sobre o que não é minimamente digno de aplausos ou em ataques infundados e grosseiros ao que merece atenção.

A tensão é intensa, porém débil, e o que se esforça para defender a lucidez tomba já nos primeiro degraus da escada argumentativa, não por pisar em falso ou ser claudicante, mas porque a malta irreflexiva agita-a com tamanha fúria que nem o mais tenaz defensor da civilização consegue se manter seguro, em pé, equilibrado, por muito tempo.

Triste condição, porém concreta: não há mais elegância, não há mais normas comportamentais, não há mais etiqueta (palavra tão aviltada e injustamente ridicularizada no nosso tempo), não há mais equilíbrio. 

O fiel da balança pende para um só lado, o do rancor. E pende não porque descalibrado, mas porque forçado a tanto. Pende porque atado ao peso da amargura. Peso que foi forjado no fogo da subcultura do ressentimento.

Foi neste mesmo fogo, aliás, que todas as ideologias foram moldadas e o pergaminho da Verdade, queimado. 

Há um ditado popular que diz que todos os dias saem às ruas um homem desonesto e um idiota. Quando ambos se encontram, tem-se um negócio. Igualmente, sempre que a ideologia encontra um imbecil, um fracassado social, um homem-massa, tem-se a alegria do primitivismo e o nascimento de mais um ativista, um fanático adorador de ideias rotas e puídas ou, pior, de ídolos vivos. 

A adoração do primitivismo é o novo bezerro de ouro. Sim, a comparação tem justa medida. Da mesma forma que o povo abandonou o Deus que o libertou do cativeiro para adorar um ídolo, a pasta humana deixa de lado a civilização e adora a barbárie como se esta fosse capaz de resolver os problemas que ela mesma criou para si, por sua inércia e sua falta de comprometimento com o que é certo, justo e valioso.

Precisamos defender os princípios da civilização urgentemente. Precisamos de coragem. A selva avança sobre a civilização e o primitivismo força os portões das nossas cidades, mas os princípios em que tudo é fundado são fortes, porque verdadeiros. Eles bastam para vencer a barbárie, apenas necessitam ser lembrados, defendidos, expostos, sustentados, amados, porque neles temos a civilização, aquilo que traduz o que temos de mais nobre em nossos corações: o binômio inseparável fé e razão. 

Paulo Henrique Cremoneze 

 

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Paulo Cremoneze

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