A ESTÉTICA E A EDUCAÇÃO

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A ESTÉTICA E A EDUCAÇÃO

 

Muito conhecida e não menos citada é a frase de Dostoiévski: “A beleza salvará o mundo”. 

O que é a beleza senão esta luz que se impõe por si mesma e, ao contrário do que pensam muitos, não restringe sua presença à subjetividade fechada do observador? Objetiva, está em toda a parte; pouco exigente, põe-se à espera apenas de olhos interessados e corações abertos.

Mesmo pessoas de não muita instrução conseguem identificá-la quando a encontram. Na harmonia da natureza, no brilho dum rosto, na integridade dum edifício. Atributo de Deus, o Belo, ornamento do mundo, é o excesso fundamental da criação, desde a sempre a fazê-la transbordar as coisas e a fazer delas sempre mais do que elas mesmas.

Certa vez, o saudoso Cláudio Pastro, grande artista sacro, escreveu-me: “O exercício da beleza, aquela que não é mera purpurina, conduz ao Senhor da Beleza”.

Reflito aqui, contudo, não sobre a Beleza mesma. Dedico estas linhas a uma estética particular. Ao espaço que ocupa, ou deveria ocupar, na Educação. 

Não falo da Educação, com pretensões maiúsculas e graves. As experiências que tive no ensino universitário não me credenciam senão para ficar à borda do assunto, acompanhando aos doutores do ensino a refrega de propostas e modelos.

Não porque defenda um pedagógico exemplo daquele tecnicismo que Ortega y Gasset igualava à barbárie, mas porque reconheço as limitações que me são próprias e o lugar que ocupo na sociedade.

Quero tratar das aparências, que em surtos de platonismo insistimos em rechaçar. Verdadeiramente, as aparências fortalecem aquele núcleo do qual são a casca; fortificam-no e ajudam-no a melhor cumprir suas finalidades.

Ideologias à parte, indago: o que Cuba, Reino Unido e o Reino do Japão têm em comum? O que as duas Coreias, distantes em quase tudo, fazem de igual?

Suas crianças, seus adolescentes, em todos esses lugares, trajam-se à elegância viva de belos uniformes e estudam em espaços físicos verdadeiramente dignos.

Boa parte de Cuba cai aos pedaços. É verdade. Mas suas escolas são bem estruturadas. Crianças se vestem com uniformes que em aparência se aproximam da altivez britânica ou da honradez japonesa. 

Quem olha para as duas Coreias, focando apenas neste ponto educacional, não verá praticamente diferença alguma. Provável que até se confunda. Para evitar patrulhamento nem me detenho muito na China, dona de um dos mais eficientes sistemas de ensino do mundo e que muito preza por vestimentas e estruturas escolares escolares.

Nos EUA, as escolas destinadas ao povo comum não se prendem a tantos detalhes sobre roupas, mas cuida, e muito, do entorno físico do ensino. Poucas são as que não apresentam o aspecto para lá do mínimo ideal. 

Em escolas privadas, boa parte das quais católicas ou protestantes, destinadas a famílias mais tradicionais, os alunos vestem uniformes inspirados nos britânicos e a física dos espaços repete os exemplos de Oxford ou Cambridge. 

Em alguns países com modelos educacionais eficientes os uniformes às vezes cedem, por razões variadas. O que jamais acontece com a beleza ambiente.

Desafio alguém a encontrar na Alemanha, na Noruega, na Suécia, uma escola com janelas quebradas, portas empenadas, carteiras em ruínas.

Na Alemanha os uniformes estão dispensados porque o revenant do nazismo ainda os assusta. Escolas antigas ou novas porém continuam a encantar quem as visita. 

Sob Estados comunistas, ainda que pelas razões erradas, o mesmo acontece.

Estive em Oxford e fiquei encantado com escolas, colégios e faculdades da mais importante universidade do mundo. Lá o aroma da tradição se faz sentir a cada esquina, e a aparência é o melhor exemplo do que se encontrará na substância.

Quem estuda lá já é um vencedor. E sabe disso. Sabe no momento em que veste o uniforme a igualá-lo aos pares e a distingui-lo do mundo. Na Universidade de Oxford existe um prédio apenas para exames de final de ano. E para este dia tão importante os alunos vestem-se todo formais, até com direito a capa.

E por falar em capas o que dizer dos universitários de Bolonha, Salamanca e Coimbra? Em períodos e períodos, pelos prédios de universidades e cidades, desfilam jovens, de capas às costas, violões nos braços, a fazer ressoar os acordes da tradição.

Acredito que, de forma adaptada e menos pujante, com todos os problemas do Brasil, nada impede que façamos algo parecido aqui. 

Escolas dignas, limpas, organizadas, arrumadas, que convidem ao estudo. Podemos não ter muitos prédios históricos e tradicionais, mas podemos ao menos não manter aqueles caixotes horríveis e bagunçados, de estrutura tão mal cuidada, que por aí vemos.

Por que não instituir uniformes? Ir além das simples camisetas. Uniformes dignos, algo solenes, adaptados embora a lugares e diversidades do nosso país. Precisamos de uma linguagem que faça alunos se sentirem parte de algo maior, mais intenso, mais profundo. Precisam aprender a amar suas escolas. Mas por isso elas precisam também se mostrar amáveis. 

Há algumas poucas escolas mais ou menos assim no Brasil. Quase todas concentradas em São Paulo, destinadas para a classe A. Mas, comparada à escolas de países europeus ou dos EUA, a melhor das nossas ainda é mediana. 

Todo mundo precisa de modelo. Até para ser original. E o mundo mostra que, mesmo países em tudo diferentes, há uma mínima equivalência de gostos. Pois sabem que os detalhes não são a moradia do diabo, mas o refúgio da beleza.

O cuidado com as aparências muitas vezes revela não mais que hipocrisia e teatro. Mas negligenciá-las por vontade próprio também é um erro bem estúpido. Já dizia Oscar Wilde, e dizia bem, que somente pessoas superficiais não julgam pelas aparências. Esplendor da perfeição celeste, a beleza do exterior ordenado serve também para edificar o interior que se forma. Cuidados talvez mais úteis para a educação brasileira do que supõe a nossa vã pedagogia.

 

Paulo Henrique Cremoneze

Categories: Artigos

Paulo Cremoneze

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