Juristas católicos dispostos a servir à igreja e à sociedade

Desembargador Ricardo Henry Marques Dip, do Tribunal de Justiça de São Paulo, concedeu entrevista ao O SÃO PAULO, na qual falou sobre sua nova missão.

Recentemente eleito presidente da União Internacional de Juristas Católicos, associação privada de direito pontifício, o Desembargador Ricardo Henry Marques Dip, do Tribunal de Justiça de São Paulo, concedeu entrevista ao O SÃO PAULO, na qual falou sobre sua nova missão.

Ricardo Dip, 67, é natural da Capital Paulista. Ele é Bacharel em Direito pela Faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC -SP), Bacharel em Jornalismo pela Faculdade de Jornalismo Cásper Líbero, de São Paulo; Mestre em Função Social do Direito, pela Faculdade Autônoma de Direito (Fadisp). Ele ingressou na magistratura paulista em 1979. 

A União Internacional de Juristas Católicos, criada em Paris, na França, em dezembro de 1986, promove a unidade de ação espiritual e de suas associações. A União foi convertida em uma associação privada internacional de fiéis de direito pontifício e tem sua sede social em Roma. Pouco tempo após sua criação, a União Internacional de Juristas Católicos passou a realizar congressos mundiais. 

O Desembargador destaca o crescimento das entidades que reúnem os juristas católicos em diversos países, inclusive no Brasil, como é o caso da União do Juristas Católicos de São Paulo (Ujucasp). Ele também comentou o tema do VI Congresso Mundial de Juristas Católicos, realizado entre os dias 7 e 9, na Cidade do México, que teve como tema principal “Transumanismo ou Pós-Humanidade?”, refletido por renomados conferencistas de diversos países da América e da Europa.

O SÃO PAULO – COMO O SENHOR ACOLHE A NOVA MISSÃO DE PRESIDIR A UNIÃO INTERNACIONAL DE JURISTAS CATÓLICOS?

Desembargador Ricardo Henry Marques Dip – O atual e ainda presidente da União Internacional de Juristas Católicos, Professor Miguel Ayuso Torres, notável constitucionalista de Madri, na Espanha, é um dos maiores filósofos da política de nossos tempos, e seguramente não parece nada fácil dar continuidade à excelência de seu trabalho. Pela primeira vez na história dessa União, de sua presidência se incumbirá alguém que não vive na Europa geográfica, o que é um problema adicional. Mas, enfim, confiemos que a providência supra as dificuldades, dando-me as luzes e o ânimo necessários para o reto exercício das funções presidenciais que, em substância, são, sobretudo, de coordenação técnica de atividades acadêmicas. 

QUAL AVALIAÇÃO O SENHOR FAZ DA ATUAÇÃO DA ENTIDADE NA SOCIEDADE CIVIL?

Na última década, criaram-se várias uniões nacionais de juristas, não só na Europa, mas na América hispânica, e este fato, de todo auspicioso, tem permitido melhor êxito da União internacional em promover, por larga parte do mundo, a unidade de ação espiritual e temporal dos juristas católicos, em seu liame indeclinável com nossa Igreja Católica Apostólica Romana. 

QUAIS SÃO OS PRINCIPAIS DESAFIOS A SEREM ENFRENTADOS PELA ENTIDADE ATUALMENTE?

Na última década, criaram-se várias uniões nacionais de juristas, não só na Europa, mas na América hispânica, e este fato, de todo auspicioso, tem permitido melhor êxito da União internacional em promover, por larga parte do mundo, a unidade de ação espiritual e temporal dos juristas católicos, em seu liame indeclinável com nossa Igreja Católica Apostólica Romana.  

Há muitos desafios a enfrentar. Fiquemos num primeiro plano, em que está o problema dos muitos ataques ao bem jurídico-natural da vida. Quase em paralelo, tem-se o assédio à realidade das coisas pela “ideologia de gênero”. Aí estão o “gramcismo”, o “marcusianismo”, o “transumanismo”, o pós-humanismo, o marxismo cultural, o laxismo penal, o relativismo integral, enfim, esses “ismos” todos que se desviam da doutrina que sempre e em toda parte ensinou a Santa Igreja. 

QUAIS FORAM OS PRINCIPAIS ASSUNTOS ABORDADOS NO VI CONGRESSO MUNDIAL DE JURISTAS CATÓLICOS? PODE DESTACAR ALGUM?

Nosso VI Congresso teve por claves as ideologias do “transumanismo” e do pós-humanismo, procurando destacar-se, ao revés, a importância da natureza das coisas, incluso em seu aspecto prático, ou seja, da ação humana, em face de distopias que ameaçam o destino dos homens. Pode-se dizer que uma sinopse conclusiva desse Congresso, assim me pareceu, está na necessidade de firme adesão à Fé e à doutrina moral que sempre ensinou a Igreja, de par com a trilha da filosofia verdadeiramente católica, sobremodo a ditada por Santo Tomás de Aquino, ambas, efetivamente, pilares para a reconstrução do que se está a desconstruir ideologicamente nos tempos em que vivemos.  

O SENHOR PODE DESTACAR ALGUNS RESULTADOS DE AÇÕES PROTAGONIZADAS PELOS JURISTAS CATÓLICOS NOS ÚLTIMOS TEMPOS?

Parece-me que, no plano da quantidade, o surgimento de muitas novas uniões nacionais (assim, a do Equador, a do Haiti, a do Brasil)  e algumas até de caráter estadual, diocesano ou arquidiocesano, como, neste último caso, a União de Juristas Católicos de São Paulo (Ujucasp) –, fruto muitíssimo da diligência habitual do valioso Dr. Ives Gandra da Silva Martins e da atuação de Sua Eminência o Cardeal Odilo Pedro Scherer. Foram excelentes resultados colhidos durante a gestão de Miguel Ayuso. 

Lembremo-nos que, ainda no dia 8 setembro passado, instituiu-se, no Rio de Janeiro, a União Brasileira de Juristas Católicos (Ubrajuc), sob a presidência da agora recém-eleita deputada federal Christine Nogueira dos Reis Tonietto. Poucos dias depois, a Ubrajuc foi admitida oficialmente no âmbito da União internacional, de sorte que, no Brasil, temos agora várias importantes uniões estaduais (por exemplo, Piauí e Rio Grande do Sul), arquidiocesanas (assim, a do Rio de Janeiro e a Ujucasp), até diocesanas (é o caso da Ujucat, de São José dos Campos), e uma união nacional. 

Isso permite, de um lado, as atuações locais e regionais, cuja importância é preciso e muito destacar, promovendo-se a atividade complementar e subsidiária tanto da Ubrajuc, que atua, entre nós, em âmbito nacional, quanto da União internacional. São importantes manifestações que emanam da vida comunitária. São os juristas católicos, permitam-me a linguagem figurada, em fermentação no Brasil e para o bem da pátria que foi um dia a Terra de Santa Cruz. 

Além disso, e isso me impressionou muito, vi nascer a Ubrajuc graças à conjunção de esforços do Centro Dom Bosco do Rio de Janeiro com a dedicação de um importante grupo de juristas de São Paulo, agremiados no Movimento Magistrados para a Justiça (MMJ). São católicos reunindo-se, são juristas católicos dispostos a servir à Igreja. Vejam-se, ainda em exemplos nossos, os livros editados por iniciativa da Ujucasp e do Centro Dom Bosco ou ainda a contínua excelência de artigos publicados pelo MMJ, que vem assumindo já algum protagonismo no campo doutrinário da Justiça de São Paulo. 

Tudo isso me dá esperança de que, sob as ordens de Deus e a escolta de Nossa Senhora, possamos continuar a marcha até aqui bem-sucedida da União Internacional de Juristas Católicos.

Fonte: www.osaopaulo.org.br