AS BEM AVENTURANÇAS – MATEUS 5, 1-12

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A BEM-AVENTURANÇAS

Vendo as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-se. Os discípulos aproximaram-se, e Jesus começou a ensiná-los: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus. Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados. Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão a misericórdia. Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. Bem-aventurados sois vós quando vos injuriarem e perseguirem, e, mentindo, disserem todo tipo de mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus”.

 

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No domingo passado vimos o magistério de Jesus quando da sua passagem por Jericó, com a conversão de Zaqueu (Lc 19,1-10), o que se deu em momento no qual já era bem avançada a pregação de Jesus. Hoje temos suas bem-aventuranças, proferidas logo no início da sua carreira evangelizadora.

 

As bem-aventuranças são o retrato de Jesus, não o retrato da sua imagem física, mas de quem ele era, da sua mente, da sua maneira de ser e dos seus ideais, além de ser a síntese do que ele veio ensinar.

 

Já se disse que o Sermão da Montanha, no qual estão inseridas as bem-aventuranças de Jesus, é a Carta Magna dos cristãos. Essa afirmação liga-se à importância dessa prédica, tão grande quanto foi aquela carta do século XIII para a liberdade e a igualdade dos homens perante o poder do soberano, mas também carrega a característica de ser uma declaração de libertação dos vícios deste mundo e de igualação de todos entre si e perante Deus. Mais ainda, o documento inglês foi apenas o começo de um processo de redução das regalias dos reis, ao passo que o sermão de Jesus foi o ápice da proclamação do bem e da paz entre todos, e de um Deus que não oprime, mas ama.

 

Compreendemos esse conteúdo e esse sentido das bem-aventuranças quando as contemplamos a partir da noção de que, antes de tudo, elas são recomendações para a aquisição da felicidade, não apenas a felicidade da salvação eterna, mas também a felicidade já agora, neste mesmo mundo.

 

Realmente, bem-aventurança significa receber benção e estar em estado de felicidade, assim como ser bem-aventurado é ser abençoado e ser bem-amado. Por isto, é falsa a ideia que se pode ter ao se ler as bem-aventuranças e entendê-las como sendo a defesa da pobreza, da aflição, da fraqueza, da fome, da sede, isto é, a defesa de situações e comportamentos contrários ao destino que Deus quer para os homens nesta vida.

 

Ao contrário, a verdade das bem-aventuranças emana primeiramente da consideração do seu conjunto total, e não de cada uma isoladamente, mas também do correto entendimento de cada uma. E a essa verdade se chega desde a primeira delas, que é ser pobre em espírito, e não pobre de dinheiro, porque um miserável financeiramente pode se supor rico ao se julgar importante e dono do seu destino.

Ao contrário, ser pobre em espírito é se aceitar como dependente de Deus, ainda que se tenha muitas riquezas materiais ou muito poder entre os homens.

 

Quem é pobre em espírito não é autosuficiente. Ao contrário, é humilde, não se julga insuperável e superior aos outros, pois sabe que é sempre dependente de acasos da vida, sobre os quais não tem o mínimo controle, acasos que inclusive podem levá-lo à ruína patrimonial, à penúria de saúde ou ao desastre moral, e até à morte.

 

E quem é humilde também é manso em seu coração, igual a Jesus, que se declarou “manso e humilde de coração” (Mt 11,29). Com sua mansidão, o humilde não ganha inimigos, e consegue que seus inimigos não tenham como atacá-lo porque ficam “falando sozinhos” quando o agridem.

 

Mas humildade não significa covardia ou falta de ação, pois o humilde também pode ser corajoso e destemido sem perder a humildade, que é se enxergar no mesmo nível de todos, nem acima nem abaixo deles, mesmo quando se resolva tomar atitudes que outros temem adotar.

 

E mais, o humilde não afasta outras pessoas de si, como ocorre com os presunçosos e arrogantes, que angariam antipatias e dos quais todos fogem, salvo os que sejam tão ou mais pretensiosos do que eles.

 

Jesus afirmou que os mansos serão bem-aventurados porque possuirão a terra, contrariamente àquela ideia distorcida de que as bem-aventuranças são imposições de sofrimentos e fracassos. Quem tem esta visão errada dos ditos de Jesus na montanha da Galileia, certamente acredita que possuir a terra depende de audácia e luta com todas as forças para derrotar adversários, e não de mansidão.

 

Mas os mansos possuem a terra através da sua atitude, que atrai amigos e colaboradores, e isso de resto lhes dá felicidade e tranquilidade, paz de espírito e tudo o mais com o que são amados, e não odiados.

 

Pois tudo acontece aqui mesmo, vindo a outra felicidade, aquela que se terá no céu após a morte do corpo, como consequência natural do comportamento feliz dos bem-aventurados enquanto ainda vivos.

Por Dr. Ricardo Mariz de Oliveira

Categories: Evangelho Semanal

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